domingo, 25 de março de 2012

MÉTODO DIALÉTICO E TEORIA POLÍTICA - Michael Lowy

O texto tem início trazendo ao debate o porquê de somente marxismo ser capaz de objetivar uma solução radical e coerente ao como conciliar o caráter partidário com o conhecimento objetivo da verdade. Aponta também que os textos dos autores marxistas nos trazem as questões “os elementos” iniciais e que necessariamente devemos romper (epistemologicamente) totalmente com o positivismo.

O positivismo
    O autor começa num tom irônico dizendo que a corrente positivista é de uma simplicidade evangélica, fazendo alusão ao afastamento/separação entre a ciência e a ideologia. Isso pode ser percebido na passagem quando ele fala que, “a finalidade do sociólogo ou do historiador deve ser a de atingir a mesma neutralidade serena, imparcial e objetiva do físico, do químico, do biólogo.” (p. 10) Para tal considera que o positivismo ou as regras do método sociológico positivista são dois, a primeira considera que os fatos sociais são coisas; e a segunda que os fenômenos naturais, são fatos naturais submetidos a leis naturais.
Lowy faz uma pormenorizada alusão ao positivismo Comteano dizendo que este está fundamentado em duas premissas essenciais.
[...] primeira: A sociedade pode ser epistemologicamente assimilada à natureza (o que nós chamaremos de “naturalismo positivista”); na vida social reina uma harmonia natural. Segunda, A sociedade é regida por leis naturais, quer dizer, leis invariáveis, independentes da vontade e da ação humana [...](p. 10)
    Isso denotava um caráter reacionário, conservador e principalmente contra-revolucionário do positivismo, concepção essa explicitamente formulada por Comte. Todos esses signos e significado do positivismo comteano caracterizavam um modelo que enaltecia e dava a sociedade caris passivo com relação ao status quo social. Essa corrente filosófica de pensamento tende a aprofundar e consolidar a ordem publica vigente, no nosso caso a burguesa, acelerando as diferenças entre as classes e corroborando para o acúmulo de capitais e por conseqüência da exploração do homem pelo homem.  Em outra passagem do texto Lowy mostra que “o verdadeiro sentido da palavra “positivo” vem no sentido de opor sua doutrina as perigosas teorias dita por ele negativas, críticas, destrutivas, dissolventes, subversivas, revolucionárias, da filosofia das luzes, da revolução francesa e do socialismo.”
      “É Durkheim, mais do que Comte, que se tornará o verdadeiro mestre da sociologia positivista moderna”, Lowy começa com essa frase uma série de indagações que faz ao apontar à Durkheim uma certa centralidade no que se refere a defesa dessa corrente de pensamento. Durkheim vai aplicar diversas vezes modelos de analogia naturalista para explicar os fenômenos sociais, dizendo que estes são modelos que sempre tem um caráter ideológico conservador. No texto, lowy faz um recorte de um exemplo onde Durkheim considera a sociedade como um animal, um sistema de órgãos diferentes onde cada um tem seu papel. Além disso, em outros escritos de Durkheim percebe-se um amalgamento entre a analogia organicista e o modelo social-darwinista (onde os mais aptos sobrevivem na luta pela vida).
    É nesse sentido que aponto minhas análises iniciais. Gostaria de comentar aqui como essa corrente filosófica de pensamente pretende (ou não pretende!) estabelecer uma interpretação da vida social se não observa o homem em todas as suas dimensões?; Como trazer para o plano social uma filosofia de pensamento que não considera o debate político “encarniçado” entre concepções de mundo opostas? Essas são questões iniciais que trago ao debate e que servem para principiar a discussão.
     Entendo a concepção positivista como sendo uma forma de interpretação do mundo real através de um viés conservador e mantenedor do status quo, por isso, não obsorvendo elementos essenciais para a compreensão totalitária da sociedade. O caráter de transformação das bases sociais nunca esteve presente nessa forma de interpretar o real, pelo contrário, em todos os momentos considera a possibilidade de estabelecer [re]formas de manutenção do modelo social vigente. Observando essa passagem do texto, veremos o entendimento de Durkheim sobre o positivismo:
[...] Durkheim, como bom positivista, crê que os “pré-conceitos” e as “pré-noções” podem ser “afastados” como afastamos um óculos escuro para ver mais claro. Ele não compreende que essas “pré-noções” (quer dizer, as ideologias) são, como o estrabismo e o daltonismo, parte integrante do olhar, elemento constitutivo do ponto de vista [...] (P. 13)
     Diante desses dois autores, a saber, Comte e Durkheim, o positivismo solidificou suas bases epistemológicas e com o passar dos tempos foi se remontando (se recriando). Dessa forma, a metafísica comteana deu lugar ao behaviorismo e o funcionalismo e o modelo cibernético substituiu “vantajosamente” o modelo organicista biológico de Durkheim. O texto aponta ainda que o erro fundamental do positivismo é a incompreensão da especificidade metodológica das ciências sociais com relação as ciências naturais, cujas especificidades principais são segundo o autor:
[...] o caráter histórico dos fenômenos sociais, transitórios, perecíveis, susceptíveis de transformação pela ação dos homens; a identidade parcial entre sujeito e o objeto do conhecimento; o fato de que os problemas sociais suscitam a entrada em jogo de concepções antagônicas das diferentes classes sociais; As implicações político ideológicas da teoria social: o conhecimento da verdade pode ter conseqüências diretas sobre a luta de classes [...] (p. 15)
     Lowy encerra essa parte apontando que “toda ciência implica uma escolha. Uma realidade social, como toda realidade social, é infinita”. Isso quer dizer que a visão de mundo condiciona, segundo este, a última parte da pesquisa científica, a interpretação dos fatos, a formulação das teorias, a escolha da problemática.

A tentativa eclética de Mannheim
      O autor acima citado ainda sob o impacto do marxismo tentou estabelecer uma forma de interpretação do mundo real que não fosse nem positivista, nem marxista fundando um novo ramo da ciência social universitária: a sociologia do conhecimento.
Mannheim acredita, como os marxistas, que o observador condiciona sua perspectiva, ou seja, a maneira pela qual observa o fato social. Porém, glorifica uma possível caminho em torno de reformas pacíficas e graduais, onde a sociedade capitalista pode ainda ser equilibrada, pela concessão suficiente de serviços e melhoramentos sociais às classes inferiores.

O debate no seio do marxismo
      Esse parte do texto começa com uma posição de Mannheim dizendo que o marxsimo se constitui tão partidário quanto as teorias que opõe. Já Lowy faz uma crítica veemente a Mannheim e Althusser, dizendo que diferente desses Marx nunca escondeu a consciência de classe que caracteriza seu pensamento filosófico. No texto Lowy transcreve uma parte de um dos textos de Max onde ele fala que, assim como os economistas são os representantes científicos da classe burguesa, assim também, os socialistas e os comunistas são os teóricos da classe proletária.
            Na seqüência Lowy faz um relato de como a burguesia recebeu o método marxista de interpretação da realidade. Ele descreve o escândalo e a afronta que foi para a burguesia essa defesa desenfreada de Marx à classe trabalhadora, por ele denominada de proletariado.  Um extenso debate foi criado no seio do marxismo e diversos teóricos durante a II internacional se destacaram, entre eles destaco dois, Kautsky e Bernstein.
            Bernstein exige segundo Lowy, a compartimentação rigorosa, estanque e absoluta entre os fatos e os valores, entre a ciência pura e a moral.  Kautsky, a principio um defensor do marxismo ortodoxo, porém sua posição quanto a objetividade não estava tão afastada da de Bernstein. Kautsky vai fazer suas as premissas metodológicas de Bernstein e mesmo, em certa medida criticas ao caráter “tendencioso” dos escritos de Marx. Para Kautsky, na ciência o ideal moral é uma fonte de erros.
            Na seqüência o texto vai desvelando o método materialista histórico e seus desdobramentos práticos. O stalinismo e seu burocratismo de ocultação ideológica, onde é necessário esconder das massas a defasagem entre sua perspectiva e a do proletariado.
            Faz uma análise em torno de Louis Althusser, onde este foi o herdeiro do grande festival da ciência proletária dos anos 50, situando-se numa posição próxima, em certos pontos de vista, ao positivismo. Althusser, segundo Lowy, não esconde em nenhum momento sua admiração por A. Comte, e critica severamente o esquerdismo teórico de Lukács e Korsh por terem proclamado que o marxismo é uma ciência proletária e por tê-lo oposto à ciência burguesa. Segundo Lowy,
[...] Althusser detinha uma irresistível inclinação para o positivismo que se manifestava sobre a heterogeneidade radical, a ruptura total (o célebre corte epistemológico) entre ciência e ideologia. A ideologia é segundo ele, governada por interesses exteriores à necessidade mesma do conhecimento. Daí resulta que a ciência não é governada senão pela vontade de conhecimento [...] (p. 27).
     No final da discussão em torno do debate no sei no marxismo Lowy reitera a visão de classe presente no método em Marx e faz criticas a Althusser, como podemos observar na passagem seguinte,
[...] Althusser tem razão em assinalar a especificidade da prática científica, sua autonomia com relação a estrutura social, às condições históricas. Seu erro é absolutizar essa autonomia transformando-a numa independência, numa separação, numa ruptura quase total. Pra ele, a história da ciência econômica é como a história da ciência química, pontuada por uma descoberta genial que instaura o corte epistemológico entre ciência e ideologia, sem nenhuma relação com a classe social e seu ponto de vista [...] (p. 28).
     Por fim, Lowy destaca a discussão que ciência e ideologia não devem se opor, porém que devemos ter certa neutralidade científica que não nos deixem cair nos dogmas sectários, ou seja, não fechar os olhos e nos cegar para o que os teóricos ditos por ele conservadores, revisionistas, reacionários e contra-revolucionários. Mas, não devemos perder de vista uma teoria de base que nos confira elementos essenciais para o discernimento do ponto de vista de classe e social que estamos querendo.

Conclusão: O ponto de vista do proletariado
     Tomarei aqui algumas passagens do texto como forma de finalizar minhas análises textuais. Começo com uma passagem que para mim, significa o quanto a leitura de Lowy à partir do marxismo é atual. Com efeito, é somente do ponto de vista do proletariado, como classe revolucionária, que a historicidade do capitalismo e de suas leis econômicas se torna visível (p.30). 
            Nesse sentido,
[...] o ponto de vista do proletariado não é uma condição suficiente para o conhecimento da verdade objetiva, mas é o que mais oferece maior possibilidade de acesso a verdade. Isso porque a verdade é para o proletariado um meio de luta, uma arma indispensável para a revolução. As classes dominantes, a burguesia (e também os burocratas, num outro contexto) tem necessidades de mentiras para manter seu poder. O proletariado tem necessidade de verdade [...] (p. 34).
 Finalizo apontando como esclarecedor o embate entre o conhecimento cientifico e a verdade objetiva. Analiso que a verdade objetiva necessariamente tem que ser vista através de uma classe, a saber, o proletariado. E que o conhecimento cientifico deve sim ter consciência e posição de classe bem definida.
REFERENCIA
LOWY, MICHAEL. Método dialético e teoria política. 2º ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978. 


por Jeimison Macieira
Mestrado - 2007

Nenhum comentário:

Postar um comentário