sábado, 24 de março de 2012

É possível justificar juízos morais independentemente de articulações retóricas?


       Antes de entrarmos especificamente na questão que nos é proposta, a saber, é possível justificar juízos morais independentemente de articulações retóricas? Acredito ser necessário fundamentar algumas questões, no sentido de trazer à baila elementos que auxiliem no processo teórico de compreensão do problema.
          Segundo Aristóteles (384-322 a. C), no seu livro primeiro, a retórica trata de questões que de algum modo são da competência comum de todos os homens sem pertencerem ao domínio de uma ciência determinada (pág. 19). Nesse sentido, podemos compreender retórica, nas palavras de Aristóteles, como “a faculdade de ver teoricamente o que, em cada caso, pode ser capaz de gerar a persuasão” (idem, pág. 24). É também prerrogativa de a retórica utilizar-se de três gêneros; o deliberativo (certo e errado), o judiciário (justo e injusto) e o epidítico (elogio ou sensura). Ademais, são características da arte retórica, a adaptação ao auditório, o raciocínio dialético, o diagnostico no discurso do que pode ser refutado, capacidade crítica, escolher o que é mais persuasivo para convencer, entre outras.
            Na arte retórica, todo discurso tem pretensão de verdade ou validade e pode ser fundamentado na crença. A fundamentação de um discurso precisa ser construída em argumentos. Em geral, todo discurso tem sua justificativa.
Não obstante, quando tratamos da compreensão do que seja ética, remetemo-nos necessariamente ao seu significado, do Grego Ethos, que significa modo de ser; do latim mos ou mores, que significa costumes. Isto posto, a moral e a ética [...] surgem e se desenvolvem para atender as necessidades de explicitação consciente da contradição entre indivíduo e sociedade (LESSA, 2007, p. 22).
           
Sobre ética e moral, advogamos a necessidade de balizá-los pelo teste empírico-histórico, ou seja, precisamos localizá-los no plano concreto, enquanto substância real da vida humana. Não podemos eliminar o solo histórico, devemos entender a política, a ética e a moral dentro da consciência como reflexo do real.
            Um bom exemplo para compreendermos a ética é a análise da palavra tolerância. Supondo que ninguém deva ser contra a idéia de “ser tolerante” e entendendo tolerância como algo bom, vamos localizá-la no plano concreto: Somos tolerantes a fome? Penso que, pelo menos a maioria de nós não! Então, nesse caso, somos intolerantes! Ser intolerante é ruim, mas quando colocamos esse complexo no plano real ele admite duas compreensões, a saber, ser tolerante é bom e é ruim.
            Refletindo acerca do exemplo acima, fica perceptível a dificuldade de erigirmos uma lei que pretendemos universal, partindo de um exemplo particular, pois bastaria apenas um exemplo contrário para que a validade do argumento seja contraposto. Nesse caso, elucubrar sobre questões éticas nos remete a diversos processos culturais de construção dos complexos valorativos morais, os quais devem ser respeitados e analisados em particular. Portanto, não parte de um princípio inequívoco e incondicionado. Seria necessária a edificação de uma ética que fosse universal, e isso, seria insensato frente às diversas manifestações sociais da humanidade.
Assim sendo, relacionando as duas dimensões (ética e retórica), é factível que não há possibilidade de existir qualquer ética sem retórica, pois não há um princípio inequívoco e incondicionado que delimita que seja possível uma ética sem retórica. Na ética não podemos pensar em princípios, mas em regras condicionadas. Portanto, utilizando-se de argumentos, topos (boas opiniões).

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. Difusão Européia do Livro, São Paulo, 1959.
LAROUSSE, Koogan. Pequeno dicionário enciclopédico. Editora Larousse do Brasil Ltda., Rio de Janeiro, 1979.
LESSA. Sérgio. Lukács – ética e política: observações acerca dos fundamentos ontológicos da ética e da política. Chapecó. Argos, 2007.

Jeimison Macieira
Disciplina: Questões aprofundadas de Ética

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